Entre tantos começos de textos que muitas vezes perdem completamente o sentido depois de um tempo, às vezes consigo encontrar certos "tesouros", que por um motivo ou outro acabam ficando esquecidos, incompletos, se não apenas em um canto da memória, em um beco escuro e mal frequentado qualquer, na internet.
E no meio dos textos merecedores de uma segunda chance, eis que encontro um certo espasmo mental, não apenas digno de ser publicado, mas também um que me traz um sentimento de injustiça, pois a pessoa a quem era destinado jamais o leu, e jamais poderá fazê-lo.
O mais triste de tudo isso é lembrar que, cada uma das palavras que ali estão, foram pensadas com um sorriso em mente. Um sorriso que não era meu.
Fui tão perfeccionista com a minha própria mediocridade, que acabei deixando escondida, uma das poucas provas de amor que, posso garantir, saiu diretamente da minha alma, com endereço certo.
Agora ao ler estas palavras, que dizem "Eu te amo, obrigado por estar na minha vida", de forma tão inconvencional, consigo ver todos os projetos que tenho, deixados de lado. Todas as músicas, todos os livros, todos os quadros e objetos de arte, cujo único propósito é deixar algo além da minha existência, ameaçados pela fria mão do esquecimento. E sinto que, não apenas corro o risco de jamais conseguir ver qualquer um dos meus projetos concretizados, como também sou obrigado a conviver com a certeza de que eu devia simplesmente ter dito: "Eu te amo, obrigado por estar na minha vida..."
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Post: "Sobre os ciclos"
Data: 08/12/09 - jamais publicado.
Sobre meu encontro anterior com o Destino:http://3mooons.blogspot.com/2008/09/sobre-arte-de-perder-uma-guerra.html
Lembro-me de uma noite não tão fria, nem tão quente, que apenas existia em algum outro instante que não os memoráveis. Monótona, sem cheiro, sem cor, despida de qualquer propriedade. Incapaz de provocar qualquer um dos sentidos. Tudo era como sempre costumava ser. O silêncio, perturbador. Ainda sim, os visitantes divertiam-se naquele pequeno encontro. Não uma festa, nem uma reunião, nem um velório. Apenas outra noite, no pequeno apartamento. Na sala, conversavam sentados no sofá, o Tédio e a Desmotivação. Uma conversa longa, entre frases compridas e detalhadas, respostas curtas, inseguras. Ao lado dos dois, dormia tranquilo o gato. Na cozinha, o Desespero e a Compulsão preparavam algo sem sabor, para o jantar com ares de café da manhã. No quarto, deitados na cama, apenas a Insônia e eu.
Levantei-me em um impulso já tão comum, tão rotineiro, a perseguir um rumo que desconhecia, entre minha cama e a sala. Tentei acender a luz, mas encontrei a mão da Preguiça, espreguiçando-se bem diante de mim. Pedi desculpas e continuei, no escuro. A luz que entrava pela janela era forte o bastante, permitia enxergar as expressões de meus visitantes.
"Meu amigo!", disse-me o Tédio, abrindo um sorriso enorme, ao me ver. "Vem cá! Senta aqui com a gente! Estamos batendo um papo legal sobre o sentido da vida..."
Recusei com um gesto, antes de sentar-me diante do computador desligado. No reflexo da tela, pude ver quando entraram saltitando a Obsessão e a Paranóia. Abraçadas, riam histericamente, enquanto giravam em uma dança desconhecida. Ignorei a comoção, tentando concentrar-me. Inútil, ela não estava lá. Minha tão querida amiga, companheira para todas as horas, a Inspiração, havia me abandonado completa e definitivamente.
Naquele instante, parei e olhei para cada um de meus visitantes. Os olhares, de uma inocência inexplicável encaravam-me com certa confiança. Entre todos eles, o Tédio parecia mais à vontade do que qualquer outro. Sentado, colocara os pés em cima do sofá, já sem a manta branca que jazia no chão, ao lado da preguiça, em seu leito improvisado. Hóspedes que de tão bem tratados, pareciam querer mudar-se definitivamente para lá. "Seria o ambiente, propício?" Perguntei, pensando.
Mas com um daqueles pensamentos enigmáticos, como que plantados providencialmente, lembrei que ainda faltava alguém. Olhei para os lados, confuso, tentando encontrar uma presença que simplesmente não lembrava. Olhei na cozinha, no quarto, na sala. Fui até mesmo ao banheiro procurando e nada encontrei. Mas ao retornar à sala, logo tudo fez sentido. Diante de mim, com os olhos cheios de lágrimas, estava a Tristeza em pessoa. E mal havia colocado os pés para fora da porta, correu até mim e abraçou-me apertado, soluçando, aos prantos. Conformado, retribuí o abraço. Atrás dela vinham a Mágoa, a Decepção, Desilusão, Raiva, Angústia e outras, cujas faces eu não podia ver. Pensei ter visto a Saudade entre elas, mas não pude saber com certeza.
E então eu lá estava, entregue aos tratos de tão envolventes presenças, quando a partida de xadrez que acontecia na sala, entre o Tédio e a Preguiça, foi bruscamente interrompida pelo soar da campainha. Surpreso, levantei-me e andei em direção à porta.
Ao abrí-la, vi do outro lado um rosto familiar, o destino, que me olhava friamente.
Não disse qualquer palavra. Apenas continuei a encará-lo, tentando entender o que estaria reservando para mim. Mas ao invés de um cumprimento grosseiro, ou de um insulto, o adolescente me estendeu a mão amigavelmente. Desconfiado, retribuí o gesto, e perguntei:
- Quer entrar?
- Não precisa, obrigado, já fiz o que vim fazer.
Ao dizer estas palavras, sorriu e desapareçeu no ar, deixando-me com um ar incrédulo.
Fechei a porta e olhei para trás. Não havia mais ninguém. O gato continuava dormindo ao lado de onde antes, estava o tédio. Não mais ouvia a voz murmurante da apatia, nem o gargalhar da preguiça. Sentia-me estranhamente revigorado pela estranha e tão rápida visita.
Liguei o computador, e lá estava uma mensagem nova. Inesperada.
"Cada pessoa é universo único,e seria um prazer conhecer seu universo.As pessoas me chamam de louca,por acreditar nas coisas e ainda querer um mundo melhor,pode ser até besteira as vezes,como eu mesma penso que é,nos momentos de depressão...Mas se eu não acreditar em algo,como permanecerei viva?"
Com um sorriso, levantei-me. Deitei em minha cama abaixo da janela, enquanto observava a última visitante em minha casa. A tristeza despediu-se de mim com um beijo, sem qualquer vontade, antes de desaparecer ao irritante som do canto dos pássaros.
"Dorme agora... Inspira-te. Tu já sabes... Tudo vai ficar bem."
Ainda pude ouvir a doce e suave voz da inspiração dizer-me, antes do mundo ficar negro e silencioso mais uma vez.
2 comentários:
:o , Parabéns vc descreve tão facilmente "cenas" indescritíveis a pessoas q não foram abençoadas com tal dom.
Noites tristes não necessáriamente descrevem vidas tristes.
Há noites e dias , escurecer e amanhecer cabe a nós escolhermos se preferimos noites macabras, com trovões e raios ou dias com um astro resplandecente ou ainda se teremos um anoitecer com lindas estrelas iluminado e um amanhecer com nuvens negras sob nossas cabeças encobrindo um magnifico céu azul.
Ser ou não ser???
Lindo...e tão familiar.
Postar um comentário