sexta-feira, 29 de julho de 2011

"Knocking on the heaven's door"

Minha testa transpirava, e eu sentia o sol do verão queimando meu rosto enquanto esperava em frente à casa. Estava nervoso, sim, mas não o suficiente.
Para o meu primeiro ensaio com a banda de meus ex-colegas de escola, eu levava nada menos do que um cd do Aerosmith, outro do Oasis, e uma flauta doce, que faria o papel da flatua tocada na introdução de Stairway to Heaven. Não me pegariam desprevenido, pensava. Não que eu soubesse de fato como tocá-la, mas isso era apenas um detalhe.
- Wagner! Tem alguém aí na frente! - Gritava a voz . Pouco depois, a porta de ferro se abria. O rosto conhecido de meu ex colega estampava um leve sorriso.
- E aí, tudo bem?
Acenei com a cabeça em resposta, e entrei. No caminho para os fundos me encontrei com um pequeno cão, que não se deu ao trabalho de latir para mim. Estranhamente, a piscina estava suja.
- É aqui que vocês tocam? - Perguntei, olhando para um pequeno galpão aberto, daqueles onde se faz o churrasco de domingo...
- Não, é ali ó - O rapaz apontava para uma porta que até então eu ignorava. Do lado esquerdo, ela parecia levar a uma pequena peça, de onde uma janela que parecia coberta por dentro, despontava.
Andei em direção à porta, seguindo-o.
Ao entrar, deparei-me com uma sala de fato, pequena. Lá dentro, mais dois rostos conhecidos. Marcos havia sido meu colega em algum ano da escola que eu já não me lembrava mais. Marcelo também havia sido meu colega, mais recentemente. Era estranho pensar nas pessoas da escola, fora da escola. Era como se na escola, a única função das pessoas fosse estar lá. Fazer volume. Pensei que havia ignorado meus colegas de uma forma quase imperdoável, e perguntei-me por quanto tempo havia feito isso. Marcos segurava uma stratocaster preta, enquanto Marcelo segurava um baixo envernizado de corpo sólido e braço colado. A terceira cadeira tinha uma guitarra azul, que Wagner tratou de pegar logo que entrou.
No teto, caixas de ovos faziam o papel de isolante acústico. No meio da sala, uma lâmpada pendurada iluminava, já que a única janela era coberta por uma espuma cinza. O calor era indescritível.
- Tu conhece as músicas? - Wagner perguntava, assumindo o papel de líder da banda, já que os outros dois apesar de parecerem bastante empolgados com a presença de um possível vocalista, permaneciam calados.
- Sim! - Disse.
- Bem, estamos sem vocalista, se tu souber cantar, pode entrar na banda.
Eu sorria por dentro. Quando meu amigo Paulo comentara sobre a banda, a idéia de me candidatar parecia ao mesmo tempo surreal e empolgante. Eu jamais havia cantado na vida, e sequer tinha noção de música. As poucas aulas de canto no coral da escola não haviam servido para muita coisa.
- Então, vamos começar com "No Rain" - Wagner anunciava, enquanto os outros dois concnetravam-se em seus instrumentos. Diante de mim, um pedestal improvisado segurava um microfone. Hesitante, o testei.
- "Teste!".
Minha voz soava diferente, mais aguda que o normal, ainda sim, achei que poderia seguir.
Os primeiros acordes de No Rain começavam a encaixar-se. As duas guitarras complementavam-se, enquanto o baixo tecia a base da música. Aos poucos deixei-me levar pela empolgação, e comecei a cantar desajeitadamente.

"All I can say is that my life is pretty plain
I like watchin' the puddles gather rain
And all I can do is just pour some tea for two
and speak my point of view
But it's not sane, It's not sane"

Ao final da música, gestos de aprovação e sorrisos.
- Legal! Agora vamos tocar Guns!
E o ensaio seguiu assim, por mais de meia hora. Mais do que isso seria impossível, em virtude do calor. Assim, desta forma, tive o meu primeiro contato com a banda na qual toquei por quase quatro anos. Fiz grandes amizades e cresci como pessoa, aprendi a tocar baixo e a compor. Mas assim como tudo na vida, que tem verdadeiro valor, tudo também acabou. No dia em que resolvi sair, as divergências acerca dos rumos que a banda deveria seguir pareciam grandes o suficiente. Tudo parecia questão de honra.

Hoje é mais fácil entender a letra de No Rain, que naquele dia me pareceu tão boba e ingênua.

"It's not sane..."

Vou me lembrar para sempre do meu primeiro repertório, e guardar como tesouro a imagem daquele estúdio precário, que tanto significou para mim.

1 comentários:

Luís Freitas disse...

Viver no interior de uma banda deve ser de facto formidável, além de possivelmente louco claro, mas as historias que la se devem viver, os concertos, as viagens o espírito de companheirismo, a vontade de se superarem, é de facto algo que quero experimentar. Gostei muito do que escreves-te, o primeiro ensaio deve ser assombroso =/