
(Mais um sonho sem significado, que talvez tenha significado, afinal de contas...)
Do alto de uma montanha, protegido por uma capsula estrelar, assisto ao fim do mundo. Porém, diferentemente de como imaginava, não há uma guerra nuclear, nem uma chuva de meteoros. O dia está limpo, com sol, e do alto posso ver o verde e o azul misturando-se para criar a paisagem terrestre. O sentimento, porém, é de adeus. Por algum motivo, tenho a certeza de que não há mais salvação para nada, nem ninguém. Eis que uma voz desconhecida me conta:
- Está na hora.
Lentamente, olho para o lado, e vejo um painel com três botões. Percebo que a minha cápsula estrelar começa a levitar lentamente acima do solo, enquanto a mesma voz me fala novamente:
- Você sabe o que eles fazem, não sabe?
- Não - respondo.
- O primeiro botão vai acabar tom todas as formas de vida que ainda não deixaram o planeta. aves, peixes, mamíferos, répteis, insetos, micróbios, fungos, plantas... tudo que possui vida, deixará de existir.
Enquanto ponderava, a voz continuou:
- O segundo botão causará um terremoto sem precedentes, que destruirá tudo que foi construído pelo homem. E quando falo em construído pelo homem, me refiro não apenas aos prédios e monumentos. Falo de tudo que o homem criou. Sua cultura, seus idiomas, suas músicas, suas histórias, suas religiões. Mas também sua corrupção, seus crimes, suas maldades. Não restará sequer um vestígio de todo o legado humano.
Abaixo a cabeça e começo a pensar. Mais uma vez olho para fora, e vejo o mundo, com todos os seus defeitos e belezas. A dor que sinto mistura-se com a paz que a certeza do fim traz consigo. Sei que minha cápsula estrelar não deixará o planeta, e que estou condenado a acabar junto com o lugar onde nasci, cresci e aprendi. Não tenho medo, pois sinto que não há mais nada a perder.
- O terceiro botão - continuou a voz - , destruirá a atmosfera. Todas as camadas de ar, hão de esvair-se no espaço, sem deixar qualquer possibilidade para que a vida retorne a este lugar. Por fim, sem atmosfera e sem plantas, o sol há de secar toda a água restante no planeta, de forma que tudo que restará depois que os três botões forem ligados, será um mundo rochoso, sem luz, sem ar, sem vida.
O silêncio após a última palavra me diz que preciso decidir. Calmamente dirijo-me até o painel, e sem muito ponderar, pressiono o primeiro botão. Neste momento, do alto, em minha cápsula estrelar, percebo todo o verde transformando-se em um amarelo morto. O próprio azul do céu parece mais pálido, e o mundo agora é um mundo sem cor. Sei que agora sou a última forma de vida no mundo, ainda sim, a solidão não é maior do que antes.
- Está feito - a voz me fala - . É hora de pressionar o segundo botão.
Novamente sem ponderar, pressiono o botão fatídico. Ouço um estremecer ao longe, que vai ficando cada vez mais alto, até tornar-se um terremoto de proporções colossais. Diante de mim, vejo ruirem montanhas inteiras, enquanto crateras de tamanho indescritível abrem-se no chão, engolindo cidades inteiras. Um espetáculo medonho, que no entanto, não causa qualquer sentimento em mim.
Tudo vai ficando mais e mais calmo, até que por fim, mesmo a poeira já assentou-se, e o silêncio absoluto reina no planeta Terra, agora estranhamente deformado. Não mais o planeta redondo e azul que conhecera. Pareciam ter-se passado eras, e neste momento, minha única proteção contra todos os desastres iminentes, a cápsula onde estou, começa a descer lentamente de volta à Terra. Pouso em uma planície antes verde, que agora é um deserto cinza. tudo que resta com algum brilho, é o céu acima de mim.
- Tudo que resta agora é o terceiro botão. - A voz me diz.
- Eu sei - Respondo calmamente.
- Então sabes também que não há mais razão para hesitar.
- Sim. - E ao responder, pressiono o terceiro botão enquanto encho os pulmões com um último tanto de ar.
Tudo ao meu redor começa a perder a forma. O céu se desfaz em manchas negras, e uma leve brisa bate em meu rosto, como a dizer a deus. Sei que o ar vai acabar em breve, e nada me resta senão abraçar a morte com a empolgação de quem não quer mais nenhum sofrimento.
Não há mais nenhuma cápsula ao meu redor, nem botões. A voz, porém, retorna para despedir-se:
- Antes de deixá-lo, quero que aceite algo que guardei para o fim.
Curioso, abro os olhos, e vejo diante de mim uma pequena planta com apenas duas folhas, de um verde intenso e brilhante. Antes que pudesse fazer qualquer pergunta, a voz disse:
- Esta é a árvore da vida. Se achares que ela merece, planta-a aqui mesmo, no meio deste deserto, e ela crescerá imensamente. Com o tempo, tudo voltará a ser como antes. Enquanto ela cresce, o ar voltará aos céus, e então virão as chuvas, que hão de preencher novamente os oceanos, de onde surgirão os animais, de onde há de , novamente, emergir o homem, com todas as suas imperfeições. Quando esta pequena muda transformar-se na imensa árvore da vida que um dia foi, o mundo terá conhecido seu fim, e seu recomeço, pois tudo é assim no universo. Das estrelas que nascem em explosões magníficas, e acabam em buracos negros dos quais nem a luz escapa. Sabes que mesmo o próprio universo é apenas uma partícula, e que ela pulsa da mesma forma que cada átomo em teu corpo, ou nas rochas ao teu redor.
Neste momento chorei como uma criança, enquanto cavava com as mãos nuas, um pequeno buraco onde pudesse plantar a muda de árvore diante de mim. Não mais ouvi a voz misteriosa. Quando terminei, e vi que as minúsculas folhas verdes brilhavam , tudo que senti foi uma pequena chama de esperança surgir dentro de mim, antes de sentir que o ar ficava cada vez mais rarefeito, e então adormecer profundamente.
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