domingo, 31 de janeiro de 2010

ROUBADO!!!

Porto Alegre, 28 de janeiro de 2010. 19:00 horas. Minha cabeça repousava sobre um corpo quase desfalecido, atirado no alto da arquibancada. Tentando não deixar-me incomodar com o sol, a sede, ou com o estupro moral que havia sofrido poucas horas antes. Eu procurava lembrar que estava prestes a assistir um dos maiores espetáculos do mundo contemporâneo: O show de uma verdadeira banda de rock. Pela segunda vez na vida, o show do Metallica.

Mais uma vez, porém, minha força de vontade havia sido colocada à prova. Não bastasse o clima insuportável, também fui obrigado a suportar a arrogância e a prepotência dos "organizadores" do evento.

O show foi sim, magnífico. A versão ao vivo de One me deixou simplesmente com as pernas bambas. No entanto, elogios à performance sobrehumana da banda podem ser encontrados aos baldes em blogs, fóruns e reviews espalhados pela internet. Quem me conhece, sabe que não é isso que vou fazer aqui...

13:00 horas - Em uma quinta feira não muito agradável, no subúrbio da capital das carroças e dos odores desagradáveis. Porto "Alegre", que não me dói nem me tem, saudara-me com um de seus típicos dias de verão, abafado e insuportavelmente úmido. Havia chegado ao local bem cedo, em busca de um bom lugar. O cansaço já estendia-se a seis horas de espera, de pé, no sol. Meus olhos espremiam-se por baixo do guarda-chuva velho, emprestado, tentando não enxergar a multidão de pessoas à minha frente, na fila que mais lembrava uma procissão bovina a caminho do matadouro. A cada uns poucos minutos, "seguranças" desfilavam entusiasmados com seus uniformes novos, brandindo músculos anabolizados e cérebros atrofiados. Ensaiando seu importantíssimo papel no assalto coletivo a ser praticado naquele dia, gritavam: "Comida não entra!! Bebida não entra!!!" Pareciam mais com cães amordaçados, prestes a serem soltos sobre o público.

Minha estupidez, inconsciente da maldade daquele gesto, tentava encontrar graça adicionando frases a versões ainda mais cômicas e grotescas daquelas criaturas caricatas, dignas de medo e piedade:

"Comida não entra! Bebida não entra! Ninguém entra! Nem a banda entra! Nem eu vou entrar!! Não entra nada!!!!"

13:20 Horas - Subitamente, gritos e movimento. Naquela hora foi impossível não lembrar de um daqueles filmes sobre o Holocausto. A massa seguia incerta de seu destino enquanto "soldados" gritavam ordens. Estaríamos a caminho da câmara de gás?? Pilhas de objetos pessoais jaziam no solo. Alimentos, cadeiras, roupas, tudo jogado, abandonado, denunciando uma saída às pressas. Eis que sou surpreendido por uma mão gigante que, sem aviso, toma o guarda-chuva que carrego e o joga no chão. "Guarda-chuva não entra!!", dizia a voz intolerante que por um momento atribuí a um bandido. "Quem tiver comida ou bebida pode ir jogando fora, senão não entra!!" Surpreso com aquela quase agressão, tratei de jogar fora as duas garrafas de água mineral e o pacote de biscoitos que carregava na mochila, enquanto escondia minha câmera. Questão de segurança? Perguntei a mim mesmo, ciente da resposta. O bendito guarda-chuva, que nem meu era, servira até o momento para livrar-me do sol que castigava no horário mais quente do dia. E agora? Como eu explicaria ao dono do objeto que o mesmo havia sido involuntariamente retirado das minhas mãos? Um problema para mais tarde, pensei, enquanto ouvia a voz em tom de ameaça, dizer:

"Depois que entrar, não sai mais!!!"

...Medo...

Privado de minha liberdade?

Depois do que pareceu um verdadeiro paredão de batismo russo, do outro lado dos portões, a fila se desmanchara, e então me vi diante de oito novas filas que apontavam debaixo de placas indicadoras. Cada grupo destinado ao seu acesso exclusivo, como prometia a "organização" do evento. Não supreso, notei que pessoas do final da fila passavam sem a menor preocupação, à frente. Nova questão em minha mente: "Onde estão os seguranças agora?"

14:00 Horas - As oito filas eram agora um imenso aglomerado de gente. Pessoas que haviam chegado pouco antes, espremiam-se, muitas vezes à frente de quem havia chegado nas primeiras horas da manhã. O sol havia dado lugar a uma chuva fina e constante, molhada... Só então pude perceber a razão pela qual havia sido desprovido do meu guarda-chuva, que nem meu era. "Vendedores" desfilavam, oferecendo sacos plásticos da mesma qualidade dos que embrulham pão nas padarias e mercados. Estes eram pouco maiores, porém. O suficiente para cobrir um corpo humano. Chamando o precário produto de "Capa de chuva", o mesmo encontrado aos baldes em qualquer loja de 1,99, vendiam-na a absurdos QUINZE REAIS para qualquer pessoa burra ou desesperada o bastante.

Eu teria rido da situação, se a sede não tivesse começado a me incomodar naquele momento. Inocentemente, perguntei a um vendedor que passava, o preço da água mineral. A mesma que eu havia deixado na porta, sob as ameaças dos seguranças, e que havia sido comprada por pouco mais de um real. A resposta veio como um tiro no estômago: SEIS REAIS!!! Não ousei perguntar o preço dos sanduíches que passavam com o mesmo frenesi, nas mãos de vendedores que pareciam um tanto desesperados.

"A capa é quinze mano!!" Me dizia o "vendedor" em tom de assalto. "Lá dentro vai ser vinte!!", ameaçava. Minha mão estendida segurava uma nota de cinco reais. "É só o que eu tenho...", disse com um tom firme. Relutantemente, escondeu a transação com o corpo ao estilo dos traficantes enquanto saía anunciando o preço de antes. Enquanto ajudava minha namorada a vestí-la, tentei esquecer a sede, que começava a castigar-me.


14:20 Horas - Gritos da multidão anunciavam que algo iria acontecer. Pensei que enfim, os portões abririam-se, e poderia encontrar um bom lugar para assistir o show. Engano. A massa movia-se para a frente, e então percebi que era hora da "revista de segurança". Rapidamente tirei meus pertences da mochila, inclusive a bolsa térmica na qual preventivamente havia levado água, pretendendo evitar a mesma sede que me matava naquele exato instante. Ao chegar a minha vez, apontei para ambos os contêineres, dizendo: "Vazia, vazia, aqui carteira, aqui celular...". Aparentemente convencido de minha inocência, o "segurança" me mandou seguir.

Confesso que senti uma raiva profunda, que poucas vezes experimentei na vida. Digo. Poderia eu ter mantido minhas provisões, e nada haveria acontecido. Ninguém teve o cuidado ou mesmo audácia de olhar dentro das minhas bolsas. A bolsa térmica vazia que carregava poderia tranquilamente conter um quilo de pedras de crack. A mochila preta que ia presa ao meu peito poderia, sem a menor preocupação, trazer dois revólveres calibre 38, e munição suficiente para uma pequena chacina, e ninguém haveria notado. Neste instante percebi que a segurança era a menor das preocupações dos "organizadores" do evento.

Droga, como eu tinha sede!

15:00 Horas - Eu estava no inferno, e tinha perfeita noção disso. Já não havia qualquer resquício de organização. Sentia-me estúpido por ter chegado ao local às sete da manhã. Sob a mesma chuva constante e molhada, já encharcado, eu esperava de pé. Não mais havia uma fila, nem mesmo um pequeno aglomerado "humano", mas uma gigantesca massa de pessoas que, literalmente, espremia-se. Sob o olhar despreocupado e, chego a dizer, sádico do "STAFF", ali estávamos, parados, feito bois. Bois sim, sem melhor analogia. Lembrei-me de bois confinados em um cercado, pois era exatamente a visão que eu tinha lá do meio. Cavaletes de metal desenhavam um zigue-zague de mais ou menos uns cinquenta metros até os portões de entrada. Perguntei-me se a "organização" esperava sinceramente que aquela massa perigosamente confinada desenhasse cuidadosamente seu caminho por entre as quatro ou cinco voltas descritas pelos cavaletes. Achei que só poderia saber isso quando fosse hora de entrar. Por hora, confinado naquele lugar insuportável, a ordem era esperar, enquanto assistia ao desfile dos vendedores que pediam licensa entre a multidão. Não havia mais espaço sequer para esticar o braço. Mesmo o ato de respirar tornara-se difícil sob aquelas condições. Molhado, cansado, morto de sede, aguentando o cheiro de pessoas já bêbadas ao meu redor, aguentando a fumaça dos cigarros de seus sempre tão educados e cortêses fumantes, sentia verdadeira vontade de desistir. Mal sabia que as próximas horas seriam ainda piores.

17:00 Horas - Ainda, de alguma forma, confiante no horário prometido pela "organização", esperava que enfim os portões se abrissem, e pudesse finalmente deixar aquele lamaçal nojento e desumano. Podíamos ouvir a passagem de som ao longe, enquanto, por algum motivo, tudo continuava exatamente como na hora em que eu ali chegara. À minha frente, um ser que definitivamente não podia ser uma garota, mas um monstro de algum filme B de terror, despejava arrotos dignos de Freddy Krueger, sem a menor vergonha. Suas quatro ou cinco amigas não pareciam nem um pouco incomodadas. Ao contrário, faziam questão de tornar o ambiente ainda mais desagradável, segurando um cigarro cada.

17:40 Horas - Com um tempo de atraso que naquelas condições parecia ter sido de três horas, nada parecia mudar. Os mesmos membros do STAFF continuavam a observar as pessoas, do outro lado do cercado. Perguntei-me se em algum momento eu os veria com um saco de pipocas e refrigerante.

Subitamente, movimento e gritos. Pensei que finalmente os portões abririam, mas mais uma vez, engano. Ao invés de andar para a frente, como era esperado, a massa deslocou-se rapidamente para o lado esquerdo. Algo estava errado. Em uma correria que parecia um estouro
, eu tentava desviar para não bater em ninguém, nem ser atropelado. Poças de lama e de água explodiam aos pés da multidão, como minas terrestres. Com terror, percebi que os cavaletes de "segurança" haviam sido derrubados, e que estavam logo ali, diante de mim. Com todo o cuidado que consegui, pisei por entre os ferros, temendo em algum momento ser derrubado e pisoteado. Na melhor das hipóteses, quebrar um pé. Não sei dizer como isso não aconteceu com ninguém, enquanto aquele show dos horrores continuava sua performance diante de meus olhos. Eis que então, mais uma vez, parei sem saber o que acontecia. Percebia que apesar da paciência do público estar diminuindo e o cansaço aumentando exponencialmente, absolutamente nada acontecia. O staff continuava parado, esperando por algum desastre, eu suponho.

"Vamos invadir!!! Vamos invadir!!!" Gritavam ao meu redor, quando finalmente, começamos a entrar.

18:00 Horas - Praticamente arrastando-me no lamaçal da pista, eu tentava chegar até as arquibancadas. Temia não seguir vivo, caso fosse obrigado a passar mais alguns minutos de pé no meio da multidão. Vencendo os degraus da estrutura precária, um a um, por instantes perdi meu terrível medo de altura.

Finalmente sentado, não podia sentir meus pés. A sede era estonteante e o sol, que parecia ter feito hora extra, brilhava a oeste por detrás do palco. Bem nos meus olhos.

Ao meu lado, alguém chamava um vendedor. Logo surgia uma figura com o mesmo ar desesperado de antes, trazendo um isopor cheio de garrafas d'água, ironicamente, da mesma marca que eu havia sido obrigado a deixar no chão.
"Quanto é a água, chefe" - A pessoa ao meu lado perguntava. "É seis" - dizia a resposta que eu já conhecia. "Porquê não quinze?" - Perguntei em voz alta, olhando para o vazio. Com ar de desaprovação, o vendedor tentava descobrir se eu havia ou não falado com ele.

E ainda faltavam três horas para o show...

Não bastasse todo o abuso e humilhação sofridos, ainda havia o bendito show de "abertura". Quem foi o imbecil nacionalista que decretou que todo show internacional deve ser "aberto" por um artista nacional? Tortura sonora, além de tudo.

21:50 Horas - Com alguns minutos de show, a banda finalmente dirigia-se à platéia:

"Estamos felizes por estarmos aqui pela primeira vez"- Dizia um James Hetfield quase idoso.

A maioria das pessoas na pista VIP (Very Important PAYER ?), não conseguia sequer perceber o tamanho da bobagem proferida, e gritava orgulhosa e feliz.

domingo, 29 de novembro de 2009

Zenith

"
Our abode 'mongst the stars is waiting,
long enough for our last breath of life.
You stare at nothing, right through me,
at times resembling the Devil's concubine.
And me, I am the idol that would long
to caress our eyes until they would open no more.
I would comfort you if I only could,
but as we all know by now... I am just thin air.
"

domingo, 8 de novembro de 2009

A new career in a new town,




Uma fuga nem sempre é uma fuga, ponto.

Uma fuga pode ser um recomeço, uma nova perspectiva. Uma fuga pode ser tão simplesmente um renascer. No meu caso, a fuga é uma mera mudança de ares. Ruas diferentes, pessoas diferentes. Menos ruas, menos pessoas. Menos de quase tudo que já era demais. Sem mais correrias, sem mais distâncias desumanas, sem aglomerações. Tudo aquiparece pacífico e tranquilo. A vista da janela tem um ar ao mesmo tempo urbano e bucólico. Campos verdes estendem-se além dos poucos prédios que delimitam a cidade.

Na minha primeira noite aqui tive um sonho, que já não lembro mais. Acho que tudo vai ser assim agora. Esquecimento completo das coisas que simplesmente já não importam.

Um dia eu voltarei, só não sei para onde.
Uma fuga, às vezes, é só uma fuga...

sábado, 10 de outubro de 2009

Epílogo - A floresta de outubro.

"As lembranças que agora descansam nesta floresta, para sempre escurecerão o amanhecer em meu coração..." Opeth - Forest of October.


Ouço o som de passos que se afastam na noite. Lentos, como que sem nenhuma pressa, ficando mais e mais fracos, até que só resta o silêncio. Na escuridão, só eu consigo ouvir a canção sem versos, cujo refrão inventado repete-se odiosamente. Lembrar insistente. Pensar nostálgico. Ontem vazio. Lembranças de algo que não aconteceu. Ainda, meu sorriso é sincero. Um vulto se afasta sem direção, sob meu olhar fraterno, quase paternal. Não há estrelas no céu, e a lua é ausente, por opção.

Volto ao meu lugar de contemplação. Meu cemitério secreto, sem lápides, sem epitáfios, onde entre galhos torcidos e raízes nuas de solo negro, jazem as lembranças e as saudades que já não sinto. Aqui retorno vez que outra, sem mágoas ou pretensões. Aqui mora parte de mim.

Sento-me, e por um instante fecho os olhos. Eu sei que na noite passada, o sonho foi real. Vi um rosto familiar, de um sorriso sincero que só acabou ao despertar. Ouvi palavras sem sentido, sem significado. A dama das lágrimas cede-me um último suspiro antes de partir...

Contudo, sinto-me invulnerável. Pois através da chama eterna, eu viajo, enquanto a chuva continua a cair.

Tudo está bem agora.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Sobre existir.

ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
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ninguém responde.
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ninguém responde.
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ninguém responde.
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ninguém responde.
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ninguém responde.
ninguém responde.
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ninguém responde.
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ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.
ninguém responde.

...NINGUÉM responde.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

três, dois, um... zero the hero?



Tuonela - Da mitologia Finlandesa. O mundo dos mortos.

A contagem regressiva nem havia acabado e eu já estava em São Paulo, caminhando.
Céus, caminhei por lá quase o dobro de tudo que havia caminhado no ano todo, em Porto Alegre. É, eu sei, sou extremamente exagerado. Sou quase tão exagerado quanto Bill Gates é rico. Não, mentira.

Não tenho palavras para dizer o que foi o fim de semana. Algo surreal, como eu cansei de dizer por lá. Ter o privilégio de receber e cumprimentar a banda que, de certa forma se fez presente em toda a minha vida, e cujas músicas se empilham na trilha sonora da minha existência foi um privilégio único.

Eu mal havia colocado os pés para fora do aeroporto, e já um sinal de que os próximos dias não seriam normais. No ponto, em frente a Congonhas, uma figura me observava sem o menor constrangimento. Um rosto familiar, pensei, mas não poderia ser ninguém que eu conhecia. Tudo ficou ainda mais estranho quando além de me encarar, o sujeito começou a andar em minha direção. Por trás dos óculos escuros eu tentava reconhecer o rosto que me olhava insistentemente, mas não ousei mover um músculo. "Raul?..." ele perguntou. Óbvio, era o Paulo. Meu colega da sétima série. O cara com quem compartilhei tardes e mais tardes desenhando. Pra resumir: O baterista do Malefia, que eu não via desde a separação da banda, quase 10 anos atrás. "Cidade pequena!"

Ainda na sexta-feira eu iria ao encontro do produtor, para saber dos detalhes do meet & greet que aconteceria no dia seguinte. A surpresa veio quando, ao ligar para ele, descobri que poderia ainda no mesmo dia encontrar com a banda. Rapidamente peguei minhas coisas, um ou dois telefonemas e rumamos em direção à Via Funchal.

Em frente ao hotel, os minutos passavam. Oito e meia, era o horário previsto, e às nove e meia, nada. Nenhuma van, nem pessoas, nenhum movimento. O prédio era estranhamente vazio e pouco iluminado. Às dez horas, perguntamos ao guarda que passava, apenas para descobrir que esperávamos em frente ao lugar errado. O centro administrativo estampava o mesmo nome do hotel. Gentilmente, o guarda nos deixou passar por dentro do prédio, evitando uma longa volta na quadra. Chegamos ao jardim do hotel, próximo ao lobby. Algumas outras pessoas com camisetas do Children of Bodom aguardavam também.

Confesso que nesse momento eu me senti um tanto estranho... Eu, um homem crescido, de 27 anos, havia viajado 1100km (de novo) para ver um show, e estava esperando na porta de um hotel, por um bando de homens pouco mais velhos, tão somente para que autografassem um CD.
Estranho, o que a música me faz fazer...

Já era quase meia noite quando as vans chegaram. Eu estava morrendo de sono, pois não dormia direito desde a quinta-feira. Lembro-me que levantei e andei em direção à van, de onde desciam pessoas falando em finlandês. O primeiro a perceber a camisa com o logo (Ukonvasara) e o nome da banda foi Santeri Kalio, que timidamente caminhou em minha direção. Entreguei-lhe o CD (Tuonela) e a caneta. Sentimento estranho. Estar na presença das pessoas que compuseram tal obra prima reduziu o meu inglês a um nível tão medíocre que não consegui dizer mais que algumas palavras embaralhadas. Quisera eu ter agido como qualquer pessoa normal. Ter simplesmente dito a eles a importância de suas músicas para mim e para todos os que aguardavam o show, mas não consegui. Pedi autógrafos como uma garotinha pediria à Xuxa. Foi patético. Apertei a mão de Santeri e em seguida do baterista, Jan. Fiz questão, ao menos, de pronunciar os nomes de todos. Mostrar que conhecia a banda, e que não era um simples fanboy em busca de autógrafos. Quando percebi, toda a banda estava ao meu redor. Não precisei andar um centímetro sequer para conseguir meu cd autografado. Ele passava de mão em mão entre os membros do Amorphis, que me observavam curiosos como se não esperassem ver alguém ali, por causa deles. Jan estendeu meu cd para Niclas, que em seguida o passou para ninguém menos que Esa Holopainen, parado, na minha frente. Entreguei a ele uma caixa, um presente. Uma demonstração do quanto aquele dia era importante não apenas para mim, mas para todos os fãs da banda. - "Este é um presente do Brasil, para o Amorphis." - Disse a ele. Um obrigado sincero e quando percebi, o próprio Tomi Koivusaari entregava-me o meu CD. Timidamente, despediram-se, e começaram a subir, um a um. Tomi Joutsen, membro mais recente da banda, esperava ao nosso lado, um tanto isolado do grupo principal, mas também assinou o CD, apesar da aparência cansada. Desejei-lhes um bom show, sem conseguir dizer mais do que isso, e então fui falar com o produtor.

Depois de tudo acertado, pegamos um taxi de volta ao hotel. Eu mal podia parar de pé, de tanta fome e sono. O dia havia sido estranhamente bom, atípico. Ao olhar para o Tuonela, lembrei-me do momento em que o ouvi pela primeira vez. Uma manhã fria e ensolarada de inverno, quando também pela primeira vez, eu gostei de sentir o sol batendo em meu rosto.

"
Forjando o futuro, pela pedra eterna
Oh, deixa-me saber o quão longe eu posso ir
Responde às perguntas que ninguem faz
Flutua no mar da loucura
Encara o cotidiano

Tão só para pensar
Tão triste estar só
Na neblina do desconhecido
Tento me enganar
Com sonhos que nunca se tornam reais
Tão difícil permanecer são
Nunca mais
Nunca mais
Irei falhar?

Não me digas para esperar
Diga-me para viver o hoje
Enquanto as flores apodrecem
Esquecerei minha dor

Desde que as estrelas brilham
O diabo me mostrou o caminho
"

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Contagem regressiva. Quatro

Terça-feira, pós feriado de "Independenssia do brasíu".

Céu cinza, chuva fria, temperaturas baixas. O vento forte derruba antenas por aí...

Faltam 4 dias para Amorphis.