
A joalheria nem sequer era das mais requintadas. Ficava em uma esquina cinza, em uma parte velha da cidade onde havia muito, não se desfilavam as roupas novas. Ainda sim, mantinha em sua vitrine jóias de beleza ímpar. Colares, brincos, anéis e broches, tudo feito pelo velho joalheiro que ali trabalhava desde moço.
Em uma tarde como outra qualquer, um jovem casal entrava pela porta adentro. A mulher trazia um sorriso imenso no rosto.
- Oi - ela disse, quase gritando.
O joalheiro respondeu com um sorriso simpático, por trás do balcão, em um carregado sotaque francês:
- Bem vindos a minha humilde loja. Como posso ajudar?
O rapaz adiantou-se:
- Queremos ver um diamante!
- Sim! um diamante! - retrucou a mulher, agitada.
- Pode trazer o maior e o mais caro que tiver! - disse novamente o rapaz, com um sorriso tão grande quanto o da moça ao seu lado.
- Oui, eu tenho a peça perfeita! - Disse o ouríves, enquanto dirigia-se à prateleira atrás de si.
- Este é o maior diamante da loja. Uma peça fabulosa, se me permitem - Falou enquanto retirava um colar dourado do mostruário. - São cento e vinte e cinco pedras, todas da mais alta pureza, e no centro, a cereja do bolo, quase tão grande quanto uma cereja de verdade.
No centro do colar havia um diamante de brilho indescritível. A peça parecia ter sido feita para uma rainha ou princesa, tamanha era sua beleza.
Os olhos da mulher brilharam ao enxergar a jóia.
- Ele é fantástico! - Disse.
- Te deixou mais linda do que nunca - elogiou o rapaz.
- Eu adorei, este é o mais caro? - Perguntou.
- Na verdade, é a terceira peça mais cara da loja. - Falou o velho joalheiro.
- Bom, acontece que nós ficamos noivos, e eu queria dar à minha noiva a peça mais cara que tiver!
- Ah, permitam-me dar os parabéns! Vocês formam um casal formidável. - Disse o velho. - Mas se é a peça mais cara que vocês procuram, então talvez devam ver isto.
E após guardar o colar de volta na prateleira, abriu uma gaveta abaixo do balcão, de onde retirou uma caixa de veludo azul.
- Eis a peça mais cara de toda a loja. - Ao dizer isso, abriu a caixa, revelando dentro dela um medalhão prateado, com doze pedras verdes, e incontáveis brilhantes.
- É lindo! - Disse a mulher, cobrindo a boca com as duas mãos. - São esmeraldas?
- Não, não, madmoseille, veja, a beleza desta peça está na forma sutil como o ouro foi purificado até atingir esta coloração prateada. Este é o ouro mais puro e mais caro que irá encontrar em toda a cidade, e arrisco a dizer, em todo o país. Estas pedras verdes encravadas não são esmeraldas, oh não. São diamantes gêmeos de coloração ímpar. Vieram de uma mina africana de onde saíram os maiores e mais belos diamantes do mundo. - Explicou com um sorriso. Esta coloração nunca mais foi encontrada no mundo todo. São diamantes únicos. Não existem mais peças como esta, e é por isso que esta medalha custa quase dez vezes o valor da maior pedra da loja.
- Fantástico - Exclamaram os noivos.
- Contudo, permitam-me fazer uma sugestão.
- Sim?
- Um noivado não precisa necessariamente da pedra mais cara, ou da maior. Eu tenho aqui em minha loja algo perfeito para um casal tão jovem. É algo verdadeiramente especial. Gostariam de ver?
- Claro! por favor. - Disseram.
- Pois bem. Disse o velho enquanto guardava a caixa de veludo na mesma gaveta de onde tirou uma pequena caixa de madeira que parecia muito antiga. Ao abrí-la, haviam dois anéis dourados, cada um com um único diamante.
- Esta peça foi encomendada ao meu pai por um velho amigo, muito antes de eu nascer. Era um soldado a serviço do exército francês que lutou na primeira grande guerra. Durante três anos, antes mesmo de ser convocado, ele veio à loja de meu pai todos os dias trazendo moedas que conseguia juntar, confiando a ele a responsabilidade de, quando o dinheiro fosse suficiente, confeccionar um par de alianças, com as quais pediria a mão de sua amada. Ao final de três anos, meu pai já tinha o dinheiro para o ouro das alianças, mas resolveu dar ao bom homem um presente pela sua persistência, e colocou nas alianças duas pedras brilhantes. Não as mais caras, nem as maiores que tinha, ainda sim, duas pedras dignas do esforço do jovem soldado. Quando ele entrou na loja de meu pai para dar-lhe as moedas daquele dia, meu pai falou: "- Guarde-as, meu bom jovem, pois suas alianças estão prontas."Ao dizer aquilo, meu pai estendeu-lhe esta pequena caixa com as duas alianças. Seu sorriso, meu pai contava, foi mais brilhante do que todas as pedras e todas as jóias da loja. Mas o jovem não quis sequer tocá-las, pois estava sujo de lama. "Eu voltarei amanhã para pegá-las" Ele disse. Mas isso nunca aconteceu. Ainda naquele dia, ele fora chamado ao norte, para defender a frança contra os invasores alemães. A jovem moça que deveria ter sido pedida em noivado jamais soube do esforço daquele nobre soldado.
Após uma pequena pausa, o velho joalheiro continuou:
- Estas peças possuem um valor que nenhuma jóia desta loja pode igualar.
- Sim mas, são pequenas demais - Disse a mulher. Com certeza são baratas demais. Quero ver de novo o medalhão!
O sorriso que até então havia no rosto do ouríves sumiu.
- Os senhores jamais entenderão o verdadeiro valor da peça que acabei de mostrar-lhes. Quero pedir que retirem-se desta loja.
Contrariado, o rapaz respondeu:
- Como assim? Isso é um insulto! Nós viemos comprar uma peça cara e o senhor nos mostra uma semi-jóia? E ainda se atreve a nos expulsar?
- Como eu disse antes, meu rapaz, você jamais entenderá o valor deste par de alianças. Há muitas joalherias nesta cidade e eu tenho certeza de que não terá problemas em encontrar pedras imensamente caras para a sua noiva.
- Velho maluco! - gritou a mulher.
- Há cinquenta anos, minha cara, eu tento dar este presente a alguém que seja merecedor, e cada casal de noivos que entra por aquela porta renova a minha esperança. No entanto, é sempre com descaso que minha história é ouvida. Não uma vez sequer, alguém ficou tocado com a persistência daquele homem, ou com a forma injusta com que a vida lhe negou a oportunidade de ser feliz ao lado da pessoa que amava. Portanto, sim, saim daqui, e saiam logo. Podem bradar insultos contra mim, não me importo. Há uma infinidade de tesouros lá fora, para quem quiser encontrar e por eles puder pagar. Vão logo, eu insisto! Busquem a pedra mais cara, ou a maior. Busquem o brilho inerte. Busquem a ostentação, o luxo, o circo. A chance única de dar a estes anéis o final que eles merecem, não será sua. Au revoir!

