
Assunto da semana: A cantora Vanusa dispara uma versão "rebelde" do hino nacional durante a reunião primeiro encontro estadual de agentes públicos de SP. Imediatamente, a internet revolta-se. "Que falta de respeito" dizem uns. "Mas que absurdo, não conhecer o hino!" dizem outros. "É por isso que o país não vai pra frente!" dispara
a frase pronta o comentário no youtube.
Não vou defender a Vanusa, não. Antes de mais nada porque não a conheço e tampouco a sua carreira. Não gosto de música brasileira, mas isso é questão de gosto pessoal. Nada contra quem gosta. Se ela errou o hino, o problema é só dela. Deve ter seus motivos.
Mas o fato mais interessante é que, nessas horas todo mundo é incrivelmente patriota e orgulhoso! Defensores ferrenhos da "brasilidade". Gente que seria capaz de pegar o fuzil e ir defender seus ideais, no grito e na força! Ou estou errado? Malditos sejam aqueles que não sabem o a letra do hino nacional, e que não respeitam o próprio país onde nasceram, não é mesmo?
A grande verdade, porém, é que GRANDE PARTE do povo brasileiro não sabe a porra do hino nacional. E querem saber mais? AINDA BEM! Digo. Não vou entrar na questão do porquê. Basta saber que acredito na evolução pessoal, ao invés da cegueira do patriotismo. Acredito nos verdadeiros valores, no respeito ao próximo, e não em um conjunto de leis estúpidas, quando não tendenciosas, feitas pra proteger um grupo específico, das quais somos reféns. Não sou ingênuo para acreditar que tudo que me ensinaram na escola é o certo e o apropriado...
Enfim. Eu arrisco dizer que pelo menos a metade dos críticos de Vanuza na internet, não saberia transcrever a letra do hino em um pedaço de papel. Não ao menos, sem uma meia dúzia de erros de português.
Assunto complicado esse, aliás. Errar o português causa tanta (ou mais) discórdia entre os internautas quanto a letra do hino nacional. E que o diga a Xuxa, outra recente vítima da ira da inquisição brasileira, defensora da língua, dos costumes e do orgulho nacional.
Vejamos...O português é uma língua pomposa, cheia de regras (muitas delas desnecessárias, por sinal) e complicada. Começa pelo fato da língua falada ser substancialmente diferente da língua escrita. É como uma madame esnobe que se veste com peles, usa maquilagem da mais cara e anda com um poodle tingido de rosa, com o nariz lá em cima durante o dia, mas que à noite joga seu vestidinho mais sexy por cima da calcinha mais "enfiada" e vai pra boate, ser filmada dançando o créu.
Em um país cuja taxa de analfabetismo funcional é de 75%, é de se esperar que ocorram deslizes, aqui ou ali, não é mesmo? Além do mais, me parece perfeitamente normal que uma criança de nove anos cometa um erro de português. Ou será que não? O problema todo é que a criança, nesse caso, teve o azar de ser filha da Xuxa...
O brasileiro não perdoa. Adora encher a boca. Quer livrar o mundo dos infiéis e não vou me espantar quando começarem a explodir bombas nos estádios de futebol. (hmm.. peraí...)
É preciso ser muito cego pra não ver os problemas nesse país. Viver em um mundo
cor-de-rosa verde-amarelo no qual tudo é sempre uma festa, onde se queimam
os infiéis as bruxas pela manhã e se pára tudo no final da tarde para assistir o jogo da seleção.
Sarah Lacy pode até não conhecer o princípio da "reciprocidade" brasileira, mas foi outra a ser malhada na internet por falar "mal" do país. Bastou dizer que o governo é mal organizado (ora, meesmo????) e que não há segurança, pra ser prontamente hostilizada com o mais ácido ódio anti-americano, bastante típico em terras tupiniquins.
Não acho que "o-país-não-vai-pra-frente" por causa da falta de conhecimento do hino nacional. Não acho que o patriotismo irá salvar ninguém do poço escuro da ignorância e muito menos acho que o português irá mudar magicamente a postura arrogante que o brasileiro tem por natureza. Acho que pra mudar alguma coisa, precisamos antes de mais nada aprender a não vivermos cheios de um orgulho irracional, xenofóbico, que nos limita a visão e nos torna calados, cúmplices de crimes indizíveis,contra o ser humano, que acontecem bem debaixo do nosso nariz.
Enquanto lá em Brasília, o sr. Molusco segue sem saber de nada, a mãe gentil larga seus filhos no lixo, em berço esplêndido, debaixo da ponte, mas confia no seu braço forte quando chega a hora de defender a pátria. A liberdade vende os seios (e um pouco mais) na esquina, enquanto assistimos felizes aos dribles do Ronaldinho.
Viva, viva, viva o Brasil!